Carta póstuma à Aline

Querida Aline,

Você não faz ideia do quanto me alegra saber que ainda se interessa por mim, depois de todo esse tempo! Faz tempo que parti, sei. Quanto tempo? Não faço a menor ideia. Minha percepção de tempo difere da sua. Difícil contar o passar do tempo sem calendário, relógio… Sem um lápis que seja, para fazer tracinhos na parede, contando o passar dos dias.

(Pensando bem, mesmo que tivesse lápis ou calendário, como contar o passar dos dias, quando tudo que vejo é esse branco sem fim?)

Queria saber como as coisas andam por aí. Como tem passado sem mim. Como é viver sem meu corpo ao seu lado. Será que meu interlocutor consegue trazer notícias suas até mim? Ou seria esta uma comunicação de mão única? Espero que não… Porque sinto muita falta de seus beijos. Seu toque. Sua voz.

Eu sei, eu sei. Agora é tarde para dar valor àquilo tudo que perdi. Que deveria ter dado mais atenção à sua presença, ao invés de ser a materialização da ausência. Presenteísmo que fala, né? Então… Fui presenteísmo, agora sou passado.

Tenho boas e más notícias, pelo menos sob minha ótica, meu ponto de vista. A mesma abordagem egocêntrica de sempre. Você já tinha se acostumado com isso, não é mesmo? Será que agora se acostumou com a liberdade de pensar, de falar, de agir por conta própria? Uma liberdade que desconhecia até minha partida. Estranho não saber de você…

Mas voltando aqui ao meu mundinho. Ele é nada além disso: um minúsculo mundinho! Aqui estou sozinho, o mundo se resume a mim, e unicamente à minha pessoa. Não como antes, quando pensava que o mundo girava ao meu redor, que a mim me interessava tão somente meus anseios, meus problemas, minhas necessidades. Tudo girava em torno de mim. Mas não aqui. Por aqui, tudo se resume a mim. Aqui é apenas o Branco e eu.

Pois é. Não estou no inferno. E essa é a boa notícia! A má notícia é que tampouco estou no paraíso. E, pelo pouco que pude perceber, isto aqui não é o limbo, o purgatório, aquele lugar perdido no meio do caminho, onde almas são purificadas, antes de estarem prontas para serem admitidas nos céus. Isto aqui é o Branco, o vazio, o meu mundo que é só meu. E quer saber? Isto aqui é uma merda! Não tem ninguém para me servir. Ninguém para me escutar. Ninguém para me idolatrar. Ninguém para me criticar. Ninguém para ser por mim criticado, atacado, agredido. Ninguém. Este é um mundo de ninguém… De ninguém mais, além de mim mesmo. E o Branco. Ah, esse Branco!

Sinto que estou ficando cada vez mais louco. Você não imagina o quanto minha presença é irritante! Quer dizer… Acho que você o sabe muito bem, não é mesmo? Você ainda se lembra do quanto fui inconveniente, Aline? Ainda se lembra de mim? Ontem fui estorvo. Hoje seria eu… seria eu seu encosto? Acho que não. Encostos têm o privilégio de observarem os que deixaram para trás, tipo stalkers vindos de outras dimensões. Sem meu interlocutor, sequer estaria lhe escrevendo estas poucas palavras…

Sabe o que é mais irônico nessa história toda? Você, Aline, toda cristã, temente à Deus, crítica ferrenha desses macumbeiros que matam galinha e sujam as praias no dia de Iemanjá… Justo você, que sempre rejeitou essas crendices populares, primitivas práticas religiosas que são condenadas pelo Senhor, nosso Deus… Não consigo entender o que a levou a procurar algum feiticeiro de mesa branca para psicografar estas minhas palavras póstumas! Criatura, você se perdeu depois que parti, foi? Engraçado como transgressões são aceitáveis quando nos são convenientes, não é mesmo? Mas que piada…

Mas a verdade é que isso também é algo que aprendeu comigo, não é mesmo? Porque sempre fui muito bom nessa arte de usar as escrituras sagradas em meu favor…

Acho até que é por isso que estou no Branco, sabe? Paraíso? Não fiz por merecer. Inferno? O cramulhão certamente não está disposto a dividir seu reinado com a concorrência…

Do mais, o que posso lhe dizer? Aconselhar, talvez… Se bem que, se meus conselhos fossem bons, não estaria aqui no Branco neste exato momento! À propósito, alguém descobriu de onde foi que aquele projétil veio, ou à mando de quem? Vai ter pontaria certeira assim lá na puta que o pariu!

Voltando aos conselhos… Diria para tomar cuidado com o Morano e confiar na Priscila. Por quê? Simples! Nunca confie em quem fala em nome de Deus, mas age exclusivamente em causa própria. Sei que agia assim em vida, e o que ficou para mim? O Branco! O vazio! E uma bala bem no meio da minha cabeça, liquefazendo meus miolos…

Mas a Priscila não. Ela é má, mas inteligente. Ela age em causa própria, mas não dissimula suas intenções em meio às palavras. Ela é autêntica, verdadeira… Tão transparente quanto o ar que respira! Gosto de gente autêntica, verdadeira, direta. Fique ao lado do Morano, e acabará como acabei. Fique ao lado da Priscila, e terá o mundo aos seus pés!

Uma última coisa, antes que essa pobre alma que está psicografando minha mensagem tenha um ataque epilético! Apesar de estar no Branco, tenho uma visão do seu mundo, a qual não sei explicar… Nessa visão, a Vilage foi campeã do carnaval em 2019, semanas após minha morte. Não sei se foi sonho. Acho que não sonho por aqui, até porque tampouco durmo! Só sei que tenho essa imagem na cabeça. Vilage campeã, mas você não estava lá. Estranho, não? E o tema da Vilage não poderia ter sido mais providencial: “Vamos Renascer das Cinzas”!

Aline, meu amor. Me prometa uma coisa. Me prometa que, assim como a Vilage, iremos nós, os Bolsoy, renascer das cinzas e reconstruir nosso país!

Mande beijos à Priscila.

Com amor,

Marcus (e para você, “Vi”).

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