E se a culpa for mesmo da China?

“Quem assistiu Chernobyl vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. +1 vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor (sic) tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução.”

Eduardo Bolsonaro (@BolsonaroSP) via Twitter, 18/03/2020

Chernobyl. Resolvi pesquisar sobre o horrendo caso soviético. Aqui vai um pequeno trecho da Revista Saúde, artigo de julho de 2019, quando a HBO lançou a série citada pelo deputado.

“Até hoje, não se sabe ao certo o que causou a tragédia de Chernobyl. Há quem diga que foi falha no reator. Há quem argumente que foi erro humano. Um terceiro grupo garante que foi um pouco dos dois. Não há consenso, também, sobre o total de mortos. Os números variam de 31, segundo dados oficiais do governo soviético, a 200 mil, de acordo com a estimativa do Greenpeace.”

Seriam 31 ou seriam 200 mil? Fico com a estimativa do Greenpeace. Mas isso é minha opinião pessoal, e nada além disso. E os danos vão muito além do número de mortos e de famílias inteiras devastadas pela perda de entes queridos e pelo sofrimento causado pela exposição à radiação.

“A nuvem radioativa que o vento ajudou a espalhar – o primeiro país a detectar aumento preocupante nos níveis de radiação foi a Suécia, a 1 100 quilômetros de distância da Ucrânia! – não causou danos apenas aos seres humanos. O meio ambiente também foi duramente atingido. Num raio de 400 quilômetros, a radiação contaminou rios, lagos e florestas e afetou a reprodução de animais. Num raio de 800 quilômetros, rebanhos de gado apresentaram queda na produção do leite.”

Atribuir culpa não vai trazer de volta à vida aqueles que se foram, sejam as vítimas diretas do acidente ou os que desenvolveram doenças tardias, talvez mais de dez anos depois. Mas pode resultar em algum tipo de compensação, seja ela financeira, seja mera confissão de culpa. O que o Greenpeace busca é isso: justiça. Por isso estuda Chernobyl. Por isso estuda acidentes ambientais em áreas de exploração de petróleo, carvão, minérios, e por aí vai. Por isso fazem barulho quando percebem certos fatores de risco, o próximo “lamentável acidente ambiental” se aproximando. Assumir que o governo soviético mente e acreditar nos números do Greenpeace vai muito além de afirmar que “uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor (sic) tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas”. Isso implica acreditar nos métodos adotados pela ONG, que segue padrões científicos, não apenas quando investigam comunistas, mas também quando batem à porta de grandes conglomerados industriais.

Mas, voltando ao tema central, a atribuição de culpa. Na primeira metade do século passado, comerciais de televisão nos Estados Unidos apresentavam médicos – isso mesmo, médicos! – recomendando Camel, o cigarro. “Mais médicos fumam Camel do que qualquer outro cigarro” era um dos slogans de uma campanha publicitária de 1944, seguido por “Vejam como os Camel combinam com a sua garganta” e “Percebam como eles podem ser suaves e gostosos”. Tudo isso aprovado pelo Governo Americano e seus órgãos de defesa do consumidor, que acreditaram em estudos comprados pela agência de publicidade da fabricante RJ Reynolds. Até que, décadas mais tarde, vítimas do cigarro e seus familiares receberam dos fabricantes quantias inimagináveis, a título de indenização, conquistada após penosos processos judiciais. Note-se que tudo isso ocorreu apesar do fumante fazê-lo por opção própria! Propaganda enganosa, alertas insuficientes quanto ao risco de seu consumo – deixo as alegações para os autos. O que importa aqui é entender o por quê de se atribuir culpa. Tal feito não objetiva salvar a vida daqueles que sofreram complicações decorrentes do fumo, mas sim fazer justiça e compensar financeiramente os familiares das vítimas.

E esse é o sentido da coisa toda! Atribuição de culpa para que se faça justiça, ainda que tardia. Pode não salvar vidas (ou ressuscitar mortos), mas tenta reparar danos causados por terceiros. Se é isso que busca o deputado acima citado, que fique bem claro para ele – e para todos que concordam que “a culpa é da China” – a finalidade de se atribuir culpa. Busca-se reparação, ainda que tardia.

Arte: Laerte

Se esse conceito está claro – e espero que seja esse o objetivo do deputado, senão tudo não passou de um amontoado de palavras em um tweet vazio – então vamos aplicá-lo de forma consistente. Não estamos discutindo bandeiras ou posicionamentos ideológicos. Estamos discutindo o objetivo da atribuição de culpa. Simples assim.

  • Após a Segunda Guerra Mundial, determinou-se a constituição do Estado de Israel. Foi uma reparação às atrocidades contra o povo judeu, que vinham desde muito antes da Schutzstaffel. Atribuir culpa – à humanidade, neste caso – e reparar.
  • Se a culpa por Chernobyl é da ditadura soviética, devemos buscar reparação àqueles impactados pelos efeitos da radiação.
  • Se a culpa pelo derretimento das camadas polares é dos combustíveis fósseis, devemos lutar para que a indústria do petróleo pague a conta.
  • Se a culpa pelos surtos de dengue é das autoridades ambientais, que permitiram (ou fizeram vista grossa) a deterioração de matas ciliares, tais autoridades nos devem indenizações.
  • Se a próxima pandemia vier da Amazônia, porque flexibilizamos sua exploração pelo agronegócio, a culpa será do Brasil (a.k.a. Governo Federal). Está claro?
  • Se, no final do século XIX, abolimos a escravidão, “libertando” negros de trabalhos forçados, sem qualquer tipo de indenização e sem quaisquer perspectivas de vida, deixando-os à sorte de seus próprios destinos; não seria por isso que aprovamos as tais cotas raciais? Reparação tardia? Sim. Mas é assim que funciona.
  • Se hoje lutamos por cotas para mulheres em cargos de direção, buscando-se equilíbrio entre gêneros, isso vem como compensação a séculos de dominância masculina e exploração da mulher em nossa sociedade. Atribuição de culpa e reparação, ainda que tardia. Desculpe-me, mas é assim que funciona.

Entende? Não existe meio termo. Ou entendemos o real sentido de se atribuir culpa a algo ou a alguém, ou nossos tweets esbravejarão nada além de “um montão de amontoado de muita coisa escrita”. Temo que, no caso do deputado, tudo não passe da segunda opção.

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