E os livros me salvaram, mais uma vez.

O ano é 2015. Após conturbada passagem pela belíssima, porém chata, Genebra, vivia minhas últimas semanas em Amsterdam, antes de retornar a Windsor, a terra que carrego em meu coração.

Foi quando comecei a escrever sobre Coaching. É isso mesmo! Coaching! Aquela palavra que acabou virando sinônimo de conselheiro para qualquer coisa que der dinheiro! Óbvio que existem profissionais sérios, mas o que tem de Coach de Carreira que nunca trabalhou no mundo corporativo, que nunca gerenciou uma equipe, que nunca teve que lidar com conflitos éticos com seus chefes… Ou Coach Lifestyle que bebe aos litros, fuma aos maços, come o que encontrar pela frente, no menor intervalo de tempo possível… Fora os Coaches para Escritores, alguns super sérios e que entregam resultados, outros nem tanto…

Pouco depois, comecei a escrever críticas sociais. Religião, ética, empatia… Falei de tudo um pouco… Até que, em 2017, escrevi meu primeiro artigo de opinião sobre nosso atual presidente. E foi quando tudo começou a mudar. Mas não era apenas eu, era o Brasil. Eram os brasileiros. Naquele artigo, expliquei o que muita gente está cansada de saber: que o inominável não é de direita. Ele é populista. Ponto.

Aquele artigo foi o início da longa e exaustiva jornada de brigas no FB e WhatsApp, chegando ao ponto de um familiar que pensa que é o Danilo Gentili – com a enorme diferença de que não, ele não é o Gentili, não ganha a vida como comediante e só faz rir os de sua bolha – me bloquear, não suportando minhas contra-argumentações. O caso derradeiro foi um texto escrito pelo evangeloko em questão, tentando justificar que a Bíblia autoriza o uso de arma para proteger a família e a propriedade. Assim não há parentesco que aguente…

Foi naquele ambiente que Do Inferno ao Planalto foi concebido. Foi ali que artigos deixaram de ser prioridade em meu blog, e que comecei a me concentrar na escrita de meu livro.

A história é tensa, e alguns capítulos me levaram a locais que preferia não ter visitado. Por isso, quando terminei de escrevê-lo e o submeti à avaliação de editoras, precisei escrever Ana Que Vivia no Espelho. Não que seja a história mais água com açúcar do mundo, muito pelo contrário! Mas, comparada ao meu “livro maldito”, Ana foi uma bênção, uma espécie de libertação. Dei voz a várias almas penadas, a diversas vítimas, a uma multidão de pessoas que sofrem, caladas, as sequelas de abusos na infância.

E então houve a eleição, ganhou o inominável, o lançamento de meus dois livros serviu para reunir familiares e amigos, alguns que estavam naquele hall de grupos de WhatsApp que tive que me desligar, para minha própria saúde mental e para manter o foco nas minhas obras. Dezembro de 2018 foi lindo! Foi também a última vez que os vi pessoalmente.

Do conforto de meu lar na Inglaterra, assistia aos tropeços do governo, confirmando o que o mundo já sabia: são um bando de incompetentes e despreparados! Dentre os que foram recrutados como pilares de campanha, o da Economia mostrou-se emocionalmente desequilibrado, e o da Justiça, que não mais faz parte do quadro de ministros, foi fritado por tentar fazer aquilo que se propôs a fazer, ao invés de baixar a cabeça e seguir ordens do presidente e seus filhos mimados.

Até que a Amazônia começou a queimar! Sim, eles estão certos ao afirmar que o problema vem de governos anteriores. As gestões Lula e Dilma, além de levarem a cabo a megalômana Belo Monte, incentivaram o agronegócio no Centro-Oeste e Norte. A exportação de carne e soja financiava o programa de redistribuição de renda que Lula promoveu, de forma eficiente, em seu primeiro mandato. Um dos custos, porém, foi pago pela floresta.

Sim, o problema não era inédito. Mas era crescente. E era tratado com desdém. E as falas não indicavam que medidas seriam tomadas. Muito pelo contrário! Era como se o problema fossem as ONGs, os governos europeus em busca da internacionalização da Amazônia, o Di Caprio… E ali nascia Monkey 19913 | Terror & Cinzas, um livreto em formato experimental, escrito em linguagem transgressiva, que poderia (ou não) vir a se tornar minha obra mais odiada pelos meus leitores. De fato, passa longe de seu meu maior sucesso em downloads! Mas precisava escrevê-lo, e por três motivos. Primeiro, era uma chance ímpar de experimentar a escrita transgressiva. Segundo, serve de ponte entre Do Inferno ao Planalto e a distopia que estou escrevendo (trechos cruciais para entendimento do desenrolar dos fatos serão transcritos no prefácio da obra em construção). E, por fim, pude testar meus leitores, o que lhes agrada, o que reprovam. E que experiência!

Com a aceitação de Ana que Vivia no Espelho, especialmente pelo público feminino, achei por bem dar uma nova chance a Verena, a terapeuta, numa história um pouco mais longa, um pouco mais complexa, e com um toque de romance policial. Precisava desenvolver essa habilidade, e precisava fazê-lo naquele momento. Saía de um emprego, ao término de um projeto, sem saber para onde iria depois. Estava em inúmeros processos, tinha certeza que não seria o fim do mundo, que conseguiria me recolocar e que tinha reservas para me manter por um ano, se preciso fosse. Mas poderia significar o fim de Europa, e isso me incomodava demais! Voltar ao Brasil, um país sob o comando de despreparados, desajustados, maníacos… Aquilo, definitivamente, não estava nos meus planos! Mulheres Que Temiam Seus Pais me salvou naquele momento de incertezas.

E chegamos a 2020! Confirmei minha permanência na Europa, mudei os rumos de minha carreira, me despedi de Windsor e retornei à Amsterdam! E aí veio Covid, o “novo normal”, o trabalhar de casa se tornou natural. Assim como toda a população mundial, tive que aprender a me planejar para que não faltasse nada essencial em casa – não por falta de dinheiro, sou grato por isso, mas porque o comércio tem restrições de horários, e os serviços de entrega domiciliar estão saturados. Foi nesse mundo de cabeça para baixo que nasceram alguns contos, submetidos a algumas antologias, um deles selecionado e impresso – novidades em breve! – e outros aguardando resposta. Também foi neste ano que mais avancei na distopia que estou escrevendo, e recentemente publiquei Sobre Seres Urbanos, uma coletânea de contos que se interligam.

Agora estou em casa, esperando pacientemente que o SARS-COV-2 abandone meu corpo. Minha família está bem, meus sintomas são amenos, não tenho do que reclamar. Paciência, paciência, paciência… E livros, livros, livros!!! Li tantas páginas nestes últimos 10 dias de batalha contra o vírus quantas fui capaz de absorver!!! Os livros, mais uma vez, me salvaram!!!

Logo estarei livre do covid. Poderei me dedicar integralmente ao meu trabalho – difícil participar ativamente de uma videoconferência ou pensar em questões complexas de negócios quando o termômetro marca 38,5C! Sentirei falta do volume de leituras destes últimos dias. Mas tais leituras terão cumprido seu papel. A vida continua. O que li nestes dias, ficará comigo para sempre.

Protejam-se! Cuidem-se! E que venha uma vacina!

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