Irmandade dos Deuses Imolados

Me chame de Líder Supremo. Meu nome de batismo? Nunca foi importante.

Sou representante encarnado da Divindade Máxima da Irmandade dos Deuses Imolados, uma espécie de Clube da Luta de divindades, religiões, seitas e crenças. Na nossa Irmandade, acolhemos a todos, sem distinção de raça, cor, credo ou orientação sexual. Todos são bem-vindos, e cada divindade, cada religião, cada seita e cada crença tem seu líder espiritual.

Como funciona a Irmandade? Simples! Você vem, escolhe uma divindade, se junta a outros fiéis e estuda seus ensinamentos. Não! Você não pode seguir a Divindade Máxima assim, logo de cara. Tem muito aprendizado até chegar lá! Então. Na primeira noite de lua nova de cada ciclo, as runas elegem duas divindades para duelarem. A perdedora é imolada, seu líder espiritual se despede da Irmandade para sempre, e fiéis passam a seguir a divindade vencedora. Nossos irmãos têm conhecimento de religiões que é de dar inveja a muito doutor em Teologia!

Como tudo começou? Assim como em todas as outras religiões! Foi a Divindade Máxima que veio a mim e me revelou a verdade…

O ano é 2013. A fábrica à qual dediquei minha vida foi fechada. Foi assim, sem aviso, da noite pro dia. Cheguei para o turno, os portões fechados, o cara do RH do lado de dentro. Meus colegas gritando, tentando invadir o pátio, enquanto a polícia se encarregava da manutenção da ordem. Repórteres atiravam perguntas ao pobre coitado que, do lado de dentro, representava a Diretoria, aquela corja de engravatados que tomou a decisão, mas que não teve a dignidade de dar a cara à tapa. Decidi que não tinha nada ali para mim, não havia motivos para perder meu tempo com aquela cena patética. Subi na moto e voltei para casa, apenas para encontrar minha mulher na cama com outro. Não tive forças para entrar, discutir, fazer sabe-se lá o quê. Apenas acelerei, seguindo estrada afora e abandonando-a para sempre. Era o fim de meu emprego. Era o fim de minha vida conjugal. Era só o fim.

Enquanto dirigia sem rumo, uma voz ecoava na minha mente. Isso é só o fim. Seguia pela estrada, sem destino, sem norte. Foi quando cruzei uma ponte velha, em arco, acima de um riacho. Desci da moto e olhei para baixo. Devia ser uma queda de uns quinze, vinte metros. Me aproximei do abismo que me separava da eternidade. Olhei para baixo, uma vez mais. Isso é só o fim. Mas faltou-me coragem para o salto, a queda livre, a libertação. O motor voltou a roncar e segui morro acima.

Isso é só o fim. Isso é só o fim. Aquela voz me atormentava. Mal sabia eu, naquele momento, que o fim é nada além de uma porta que se abre a um novo começo.

Parei no topo do morro. Podia ver, lá embaixo, a velha ponte em arco, a ponte que me convidou ao salto, ao voo, à liberdade. Mas faltou-me coragem para dar aquele passo, um mísero passo em direção ao novo. Isso é só o fim. Isso é só o fim. Neguei-me a chance de meu recomeço!

Sem mais reflexões – e quem pensa demais, acaba não fazendo nada, nunca! – enrolei o cabo da moto e parti morro abaixo. Sabia o que deveria ser feito. Acelerar, fazer uma curva à esquerda no meio da ponte e levar minha moto comigo. Simples, não? Seria muito simples, caso aquele senhor não aparecesse, do nada, no meio da ponte, interrompendo minha trajetória.

Um maltrapilho ganhou asas. Minha moto atirou-se abismo abaixo. Eu? Fiquei ali, caído, por sabe-se lá quanto tempo. Não morri, óbvio! Estou aqui, lhe contando minha história, não é mesmo? Já o velho… Ele morreu, mas me presenteou com uma nova vida!

Procurei sua carteira, algum documento, algo que servisse de identificação. Precisava notificar seus familiares. Mas tudo que o maldito carregava era uma chave antiga e um endereço escrito à mão num pedaço de papel com um logotipo, I.D.I, as vogais ligeiramente menores que a consoante.

Rolei seu corpo à queda livre e saí, mancando e com uma dor de cabeça insuportável, em busca do tal endereço. E ali nasceu a Irmandade, e o resto é história. E não, nunca ninguém reivindicou a propriedade deste casarão de estilo colonial, tampouco vieram procurar o velho atropelado.

Deixe-me apresentar-lhe as divindades. Do velho Egito, temos Osiris, Seth, Anubis, Isis, Thoth… Na reciclagem, estão os imolados Ra e Ma’at. Dos gregos e romanos, temos na ativa Pan, Hera e Poseidon. Temos divindades célticas, nórdicas, americanas… Temos aqueles que cultuam nossos ancestrais, os espíritos da natureza, o xamanismo… Tem as religiões orientais, como hinduísmo, budismo, siquismo, taoísmo, e tem também a cabala, o judaísmo, o islamismo, o cristianismo e suas mais diversas vertentes, incluindo o espiritismo e o candomblé. E por falar em candomblé, óbvio que temos matriz africana! Vodu, Winti, Babaçuê, Fé Bahá’í… E temos também Wicca… Não! Divindades célticas não têm nada a ver com Wicca! São coisas bem diferentes! Por fim, temos as novíssimas religiões. Naquele canto escuro, mofado, ficam os maçons, os mórmons, os cientologistas, os ufonistas, os satanistas… Fui eu quem escolheu aquele canto. Não! Não é preconceito! É falta de tradição mesmo! Juntas, não somam nem um milênio de história!

Ah, a reciclagem! Quando uma divindade é imolada, ela vai para a reciclagem. Fica ali, disponível, até que alguém se voluntarie a resgatá-la, tornando-se seu líder espiritual.

Entendo… Isso é super normal… Empolgação de novato, sabe? Mas ser líder espiritual tem seu preço! Perca o duelo e sua divindade será imolada. E você, meu caro, se despedirá da Irmandade. Costumo não recomendar tal caminho a novatos mas, se insiste… Livre arbítrio, meu jovem! Aqui, você é livre para decidir por conta própria!

Lua nova, a melhor de todo o ciclo! É quando, acomodado em meu trono de madeira de lei e almofadas em veludo vermelho, do mezanino do casarão, assisto aos trabalhos dos fiéis. Há um pouco de tudo, desde as entediantes missas e seus ritos sagrados a pastores exorcizando demônios; bruxas dançando no pátio, ao redor de fogueiras; o Povo do Santo com seus batuques e danças hipnotizantes; bonecos vodu recheados com fios de cabelo e sangue; animais oferecidos em sacrifício; e até mesmo um pobre infeliz, degolado, por não ter cumprido sua parte no pacto. Os ritos sagrados têm seu tempo, suas etapas, e independem do passar das horas. O início do duelo depende da finalização dos rituais. Nem mesmo a Divindade Máxima tem poder para interrompê-los antes da hora!

Concluídos os trabalhos, lanço a Cruz de Runas e anuncio os duelistas. Nesta noite, teremos cientologistas contra Odin, o deus da guerra. Sim, aquele mesmo. Aquele que foi resgatado da reciclagem por um novato há algumas semanas. Sua primeira lua nova, e terá de liderar um duelo! Que Odin o proteja! Isso é tudo que posso lhe dizer…

O duelo entre divindades é simples. Ao escolher Odin, o novato provavelmente pensou: “Deus da Guerra. Claro que vencerei todos os duelos!” – mas, na Irmandade, lidamos com crenças. Ganha a divindade que tiver mais fiéis. Porque divindades se alimentam da fé dos humanos. Sem fiéis, as divindades morrem.

As runas foram particularmente maldosas na noite de hoje. Além do novato, havia apenas uma meia dúzia de nerds interessados na mitologia nórdica, contra dezenas de fanáticos do lado oposto.

Declaro vitória à Cientologia. O líder espiritual de Odin não entende o que se passa, mas seus seguidores sim. Caminham ao grupo oposto e saúdam seu novo líder. A partir daquele momento, passam a servir à Cientologia. Resta aos irmãos imolarem Odin. Mas quem é Odin, o deus da guerra, senão uma estátua e seu líder espiritual?

A estátua? Reduzida a cacos, até que uma nova seja esculpida e enviada à reciclagem, onde aguardará por algum fiel que se interesse em resgatá-la. Seu líder espiritual? Não lhe restava outra opção, senão se despedir para sempre da Irmandade.

Os membros se aglomeraram ao seu redor, carregaram-no e o posicionaram, barriga para cima, sobre o altar de oferendas. E assim se dá início à comunhão.

Cabe a mim, representante encarnado da Divindade Máxima, fazer uso da adaga sagrada para abri-lo, desde a genitália até sua garganta. Se debatendo sobre o altar, o líder imolado assiste, por tantos segundos quanto sua consciência o permite, a multidão retirando-lhe os órgãos e consumindo-os vorazmente. Até que vê nada mais.

A divindade derrotada, imolada. Seu líder espiritual, ofertado em comunhão aos fiéis de outras divindades, outras crenças. Naquele ritual de confraternização com os deuses, o líder derrotado se despedia da Irmandade. Para sempre.

Os dogmas da Irmandade dos Deuses Imolados são os mesmos que regeram as mais diversas religiões, ao longo dos séculos. Divindades precisam de um mensageiro, um líder espiritual, ao qual revelam seus segredos, sua sabedoria, seus mandamentos, e no qual confiam a propagação da Palavra. Divindades precisam dos homens, divindades se alimentam da fé dos homens. Sem fiéis, os deuses morrem.

Mas há uma única exceção. Trata-se da Divindade Máxima, e é por isso que ela é Máxima. Tal divindade se alimenta não de fé, mas de sangue. Essa divindade sou eu. Sou meu próprio deus.

Eu existo, creia você em mim ou não.

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