Dez e dez

(escrito para o desafio de micro contos lançado por @pensamentos_de_quinta)

“Dez e dez. Dez e dez. Sabe por que é sempre dez e dez nas propagandas de relógios?” – me perguntou, mesmo sabendo que não poderia responder nem aquela, nem quaisquer outras perguntas que me lançasse.

“Estética. Simetria. O “V” da vitória. Oito e vinte seria igualmente simétrico, mas seria negativo, seria ‘pra baixo’ – e ninguém gosta de pessoas negativas, não é mesmo?” – me olhava com seus orbes vítreos, hipnotizantes. Talvez fosse isso. Talvez lhe agradasse a ilusão de poder me hipnotizar. Me dominava, isso era óbvio, mas não por conta de sua mente, de seu olhar, de seus jogos psicológicos. Me dominava pela força bruta.

“Tem também a logo, que fica logo abaixo do 12. Os ponteiros marcando dez e dez formam uma base, uma moldura para a marca do fabricante, destacando-a, exaltando-a. Agora, preste bem atenção a esses ponteiros, esse formato. Não é belo? Não lhe remete a algo?” – a mesma maldita mania de fazer-me perguntas, o inédito sorriso que se abria em cada músculo de seu rosto.

Sorriso. Era isso. Os ponteiros marcando dez e dez formavam um sorriso. Mesmo com a boca atada, não me contive. Esbocei um sorriso nos lábios, por debaixo daquela tira de pano. Meus olhos secos, inchados, arroxeados, também encontraram um motivo fútil para desafiarem as circunstâncias e atreverem-se, talvez pela última vez, a sorrir. Talvez o talvez nem fosse assim tão talvez. Muito provável que fosse quase certo.

“Mas isso pouco importa. Seis e vinte e dois, oito e vinte e seis, onze e doze, vinte para uma… Que diferença isso faz? Qualquer que seja a hora, chegou a sua hora.” – e o Senhor do Tempo sabia que eu sabia o que ele queria dizer com aquilo.

Me ordenou que fechasse os olhos. Me recusei. Fui vendada. Ele acreditava na ilusão de poder me hipnotizar, dominar minha mente, fazer calar minhas ideias. Meu corpo, sim. Minhas ideias, jamais.

Não sei o que veio primeiro, o estampido ou a dor. Não sei o que se foi primeiro, minha vida ou meu sofrimento. Mas sei muito bem que sorria, tal qual os ponteiros do relógio, na página da revista. Era sorriso, era moldura, era positiva, era simétrica, era vitória. Minha morte não era em vão. Minha morte era o sorriso da plebe e o início da revolução.

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