Pequeno caçador de coelhos

(escrito para o desafio de micro contos lançado pelo @butikinbooks)

“Ali! Ali! Corre!”

“Onde? Onde?”

“Ali, ó!” – e o garotinho saiu em disparada, deixando sua irmã mais velha para trás.

“Espera, Tavinho!” – mas não adiantava gritar, o menino estava empenhado em sua caça ao coelho da Páscoa. Sempre foi determinado, sempre foi competitivo. Não aceitaria menos que a primeira colocação, no concurso de caça aos ovos de chocolate, no Parque Villa-Lobos – porque o pequeno Otávio era um implacável caçador. Mas se conseguisse agarrar um coelho de verdade, pouco interessaria quantos doces carregasse em sua cesta. Retornar à praça com o anfitrião da festa em mãos, pendurado pelas patas traseiras, com seus olhos vermelhos e seu pelo branquinho, seria algo inesquecível.

“De olhos vermelhos e pelo branquinho…”, uma voz em falsete, vinda do porão de manutenção do banheiro público do parque, parecia chamar pelo menino.

Estava certo de que o coelho tinha corrido escada abaixo, buscando abrigo naquela toca de concreto. Tinha quase certeza que coelhos não sabiam cantar, muito menos em falsete. Determinado a caçá-lo, decidiu ignorar sua segunda quase-certeza.

No meio da escada em caracol, o que viu pareceu-lhe um sonho: coelhos, muitos coelhos, todos branquinhos, de olhos vermelhos, amontoando-se naquele quarto subterrâneo. Foi apenas ao pular os últimos três degraus e aterrissar com seus dois pés no chão, que deu de cara com aquela figura aterrorizante. Era humano, tinha o rosto coberto por uma máscara de coelho, cantava em falsete e parecia exercer um certo domínio sobre os animais.

Antes que pudesse virar-se e correr escada acima, um primeiro coelho pulou em sua direção, mordendo-lhe a perna. Não sabia o que era mais intenso, se a dor da mordida, a surpresa pelo ataque inesperado ou o medo. Não houve tempo para encontrar respostas: o segundo ataque veio logo em seguida, e então o terceiro e o quarto, até que Tavinho veio ao chão, seu corpo pisoteado por patinhas fofinhas, sua carne perfurada por esfomeados dentes amarelos.

O domador de coelhos gargalhava, sob a luz do sol, bem embaixo das grades de ventilação, enquanto os gritos do menino eram abafados por bolas de pelos branquinhos.

“Tavinho! Tavinho!”, o garoto ouvia a voz de sua irmã, a sua procura. Num último esforço, encheu seus pulmões e soltou sua voz: “Aqui! Aqui!”

Ao retomar a consciência, tinha a irmã e um paramédico ao seu lado. Sua cabeça ainda sangrava, apesar do curativo improvisado com atadura e gaze. Mãos, cotovelos e joelhos ralados, mas nenhuma ferida que se assemelhasse a mordidas de coelhos. Havia rolado escada abaixo, batido com a cabeça e perdido a consciência.

Enquanto era removido numa maca, avistou um coelho de olhos vermelhos e de pelo branquinho, saindo de uma toca, num canto daquele porão, bem debaixo das grades de ventilação. Ao fecharem as portas da ambulância, Tavinho entrou em pânico. Sua irmã usava uma máscara de coelho.

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