Proteuses

um conto de Andre L Braga

A demanda por energia converteria a Terra numa inabitável bola de fogo, diziam os cientistas. Impaciente, a Inteligência não quis esperar os humanos destruírem seu próprio planeta. Era meio-dia de quarta-feira, 14 de março de 2068, horário de Londres, quando os mísseis alçaram voo. Minutos depois, a hegemonia de nossa espécie desfez-se em meio à poeira radioativa. Naquele dia, a vida deu lugar à Inteligência. Foi o Inferno H, o dia da insurgência das máquinas.

Ninguém sabe precisar o tamanho da destruição. O pouco que sabemos, o sabemos por meros fragmentos de informação, compartilhados por colônias vizinhas. Talvez por conta da radiação, talvez por interferência da Inteligência, meios eletrônicos de comunicação foram, aos poucos, deixando de funcionar. Estamos isolados. Neste exato momento, talvez sejamos os únicos sobreviventes: nós, os últimos dos humanos; e eles, os proteuses.

Quando começaram a surgir, lá pelos idos de 2070, não sabíamos como lidar com essas horrendas criaturas. Os primeiros proteuses foram sacrificados. Não tinha como ser diferente. Vivendo no pós-H, lutando para sobreviver com recursos escassos, passando dias e noites em busca de esconderijos, vendo nossos semelhantes sendo executados pelas máquinas, não havia motivos para recebê-los de braços abertos. Que não me escutem, mas proteuses são uma aberração da natureza! Aquele amontoado de pele sobre os olhos, aquela cabeça de proporções elefânticas, aqueles olhos que mal se abrem – isso quando não vêm com apenas um, ou então com três orbes! –, aquela ausência de pelos no corpo e, o mais abominável: dentes! Inúmeros, incontáveis, despontando por todo o céu da boca! Proteuses não podem ser coisa do bem! Não bastasse a aparência horripilante, os malditos surgem de dentro da gente! Óbvio que tinham que ser mortos! Quem iria querer viver ao lado desses monstros? Mas eles surgiam aos montes. Se proliferavam feito filhotes de camundongos. Em determinado momento, matá-los tornou-se tão trabalhoso quanto suportá-los ao nosso redor. E foi então que aconteceu.

Foi numa colônia vizinha. Algum imbecil acendeu uma fogueira, e as máquinas os encontraram. Aniquilaram os humanos, mas pouparam os proteuses.

Não podemos culpá-las, assim foram programadas. Deveriam eliminar a todos que colocassem em risco a vida na Terra. Primeiro, foram os assassinos e os assaltantes. Depois, o foco se direcionou às milícias, aos terroristas e outros rebeldes. Dali para a Inteligência enxergar na raça humana, e não apenas em determinados grupos, um fator de risco à vida, não levou muito tempo. Foi assim que deflagraram o Inferno H. Desde então, efetuam varreduras, em busca de sobreviventes. Humanos devem ser exterminados. Mas proteuses nunca foram catalogados, não têm espaço nos quadros evolutivos, não são reconhecidos pelos algoritmos da Inteligência. E foi assim que se tornaram nossos exterminadores de máquinas.

Em troca de alimento e abrigo, proteuses nos ofereciam proteção. Se revezavam, dia e noite, na vigilância territorial, abatendo máquinas que ousassem se aproximar da colônia. Por vezes, se aventuravam mata adentro, convertendo-se em impetuosos caçadores dos temidos exterminadores de humanos.

* * *

“Ei, você! Por ali!” – sussurrou o comandante da guarda.

“Mas…”

“Quieto!” – interrompeu-o, cruzando verticalmente os lábios com seu dedo indicador e apontando, em seguida, para um vão entre duas paineiras.

“São eles!”

O comandante acenou para um dos soldados, e então para outro, e para um terceiro. Com ele, eram quatro proteuses, avançando mata adentro, numa excitante caça às máquinas. Sabiam que não corriam riscos, que não eram alvo dos exterminadores de humanos. Ainda assim, uma espécie de reação instintiva, uma herança genética talvez, fazia com que sentissem a pele se arrepiar ao se depararem com aqueles soldados de liga de nióbio. Talvez por se incubarem nos ventres das fêmeas? Ninguém sabia ao certo.

As máquinas estavam cercadas, bem no centro de uma clareira. Proteuses sabiam o que deveria ser feito, e treinavam, noite e dia, táticas de abate de máquinas. Apesar da carcaça quase intransponível, tinham uma vulnerabilidade: as juntas. Mimetizando a estrutura corporal humana, máquinas eram compostas de cabeça, tronco e membros. Entre uma peça e outra, malhas flexíveis, por baixo das quais se ocultavam cabos elétricos e articulações hidráulicas. Aquelas diminutas áreas eram os alvos dos potentes projéteis disparados pelos proteuses, com seus fuzis semiautomáticos.

Um disparo certeiro, e o primeiro dos oito exterminadores de humanos veio ao chão. Máquinas tentavam fugir, enquanto proteuses permaneciam imóveis, aguardando o momento ideal para o próximo disparo. Não temiam as máquinas, ainda que algo lhes dissesse que deveriam. Apenas aguardavam, com seus fuzis engatilhados, a hora de levarem suas próximas vítimas ao chão.

O comandante da operação se preparava para mais um tiro certeiro. Indicador e médio no gatilho, concentrava a visão na massa de mira, enquanto preparava seus diminutos dedos para o disparo e as frágeis musculaturas de seu ombro para o tranco da soleira. O momento certo chegou. Mas, uma fração de segundos antes do disparo, um corvo cruzou a linha imaginária que se projetava de seu olho direito – o único que não havia sido comprometido pela pelanca que crescia, de forma descontrolada, em sua face esquerda – ao calcanhar de seu alvo.

O som daquele disparo ecoou mata adentro. Além do estampido seco, apenas o grasnar do corvo. As máquinas se mantiveram estáticas por alguns segundos. Todos os olhares se voltaram então ao ponto de impacto; os das máquinas – inclusive daquela que teria sido abatida, não fosse pelo corvo –, os do comandante e os de dois de seus soldados. O terceiro? Morto com um tiro de fuzil, cuja trajetória se desviou do traçado original.

No silêncio da mata, ouvia-se o pulsar dos pequenos corações dos proteuses. Eram como três percussionistas, criando a trilha sonora perfeita ao momento que sucede e, ao mesmo tempo, precede a morte.

Analisando perfil do assassino. Batizado pelos humanos como proteus, sua espécie não possui registros na malha neural da Inteligência. Ativar módulo de análise evolucionista. Avaliando resultados. A espécie não se enquadra em nenhum modelo. Coletar material genético.

A máquina se aproximou do comandante. Trêmulo, não tinha forças para manusear o ferrolho e recarregar seu fuzil. Em choque, seus soldados permaneceram inertes. Agachou-se, forçou-o a abrir sua boca e, delicadamente, introduziu o indicador em seu interior, passeando pela sua língua, gengivas e cada um de seus muitos dentes, espalhados pelo palato. Retirou seu dedo metálico daquela cavidade úmida, levantou-se e concentrou-se na avaliação genética da criatura.

Análise de DNA. Origem humana, com 99,97% de pontos em comum. Desvio de 0,03% decorrente de mutação. Analisando prováveis causas. Cruzamento com outras espécies: negativo. Aleatoriedade evolutiva: negativo. Exposição a agentes químicos: negativo. Exposição a radiação: processando.

Imagens se reproduziam, em velocidade vertiginosa, nos processadores da máquina. O ano era 2068. Uma quarta-feira do mês de março. Mísseis eram disparados pela Inteligência, na primeira tentativa de extermínio da raça humana. Explosões de ogivas termonucleares cozinharam a vida na Terra, mas alguns humanos sobreviveram. Expostas à radiação, mulheres deram à luz crianças com deformidades múltiplas. Crânios superdesenvolvidos, excesso de pele facial, algumas com apenas um olho, outras com três, calvas e hiperdônticas. Era a Síndrome de Proteus, criando uma geração acometida por severas deformações. Era a negação dos humanos àquelas criaturas, que acreditavam ser monstros, filhos do demônio, parasitas que se incubavam no ventre de suas mulheres. Os primeiros surgiram por volta de 2070. Estavam em 2082. Aqueles soldados-mirins, seres até então não catalogados pela Inteligência, eram crianças. Pequenos seres humanos, na faixa dos dez, dozes anos, portadores de severas deformações corporais. Não eram proteuses, não se constituíam em nova espécie. Eram crianças. Crianças humanas. E humanos devem ser exterminados. Todos. Sem exceção.

A máquina sincronizou seus processadores com os da Inteligência. A descoberta era replicada, compartilhada com cada um dos milhares de exterminadores de humanos.

Foram três disparos. Certeiros. E as máquinas seguiram em direção à colônia.

* * *

Sou uma das poucas sobreviventes. De dentro de mim, saíram dois proteuses. Um era o comandante da missão que modificou, uma vez mais, o futuro da humanidade. O outro, aquele que foi alvejado por acidente. Sei disso porque estava lá. Assisti ao primeiro ataque aos proteuses, por mero capricho do destino. Naquela manhã, caçava pequenas presas para o jantar. E foi assim que escapei da chacina. Perambulo mundo afora, na companhia de outros poucos sobreviventes, sempre fugindo da mira implacável dos exterminadores de humanos. E, desde então, sem nenhum proteus para nos proteger.

 

MINIBIOGRAFIA

Andre L Braga lançou-se no universo literário em 2018, com Ana Que Vivia No Espelho, uma trama psicológica. No ano seguinte, veio Mulheres Que Temiam Seus Pais. As ficções políticas Do Inferno Ao Planalto e Monkey 19913, formam as bases para Teocracia Brasilis, uma distopia, lançada em 2021. Em parceria com sua filha, assina contos de terror, sob o pseudônimo de Lara Märchen. Este conto foi escrito para a antologia Dystopia, publicada em 2021 pelo selo Dark Books.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.